domingo, 5 de abril de 2015

Poesia (22.2)

animação por Leandro Lyra


Segundos

Incrédulos.
Secos.
Adjetivados à desnecessidade.
Que me fecham o mundo.
Que deixam de existir
Os outros.
Não vêem o que não quero que vejam.
E não hão de abrir para quaisquer
Imagens.
Fechados sem porta
Encontram no vazio
De seu fundo
Janela de algumas almas;
Não pensaram que nem todo corpo
Carrega consigo
Um pedaço do divino,
Algumas cascas
Estão soltas
Para serem pisadas
E apenas fazem algum barulho
Quando quebradas,
Outras espumam recheio
Antes mesmo de serem tocadas.

Com a branquidão ao relento
Não há cor que seja mais pura
Do que aquela que se escolhe ver
No outro.
E piscam os olhos
Sem saber o que ver
Na tentativa inócua de atingir
O sublime.

Piscam os olhos
Abrindo-se ao mundo
E por fim morrendo diante
De tanto.
Escolheram o vazio da penumbra,
Do escuro,
E da porta cerrada.
Não mais abertos
Desejam estar. 

Texto (0.3)

Estalos

Tenho uma poesia a escrever, mas ela não sai. Em prosa se fazem as palavras uma vez perdidas em versos. Encontro outros números, outros sentimentos, outros rapazes e moças perdidos como eu. Tenho um conto a escrever, mas só versos chegam a minha mente. Não penso em histórias fantásticas nem muros altos que só os contos contam. Penso no movimento das minhas mãos quando escuto seu nome. E contos não são escritos sobre movimentos de mãos. Ou são? Os meus não serão.
Escrever tornou-se a terapia que não me é cobrada. Um momento íntimo tal qual tomar banho, fazer um café no meio da madrugada, ouvir o barulho dos carros em sinfonia urbana ou até mesmo fazer amor. Escrever tornou-se o que precisava tornar-se; a pausa excêntrica da minha labuta cordial com o mundo. Então caminho em direção às letras soltas para trazê-las à vida. Não que letras soltas não tenham vida. Um A me diz muito mais do que muita gente já tentou compor em sintonias de horas de palavras. Mas busco um balanço sem ritmo próprio nos meus As e Bs, também nos meus Cs.
Queria dizer tanta coisa, mas com meus silêncios, poucos que tenham sido, aprendi a calar; consentir nunca foi meu forte, porém há momentos de necessidade em que palavras perdem seu propósito e ganham vida em meu rosto, meus braços, meus olhos e minhas mãos principalmente. Minhas mãos são as janelas que meus olhos jovens não conseguem ser. Vê-se nelas o que passei, e também por onde passaram. Por rostos desconhecidos, por corrimões, copos e talheres e pratos e cigarros e outros copos e mais rostos desconhecidos e alguns corpos e meu corpo e meu rosto e minhas lágrimas e meu cabelo e sangue meu e minha respiração que não pode ser segurada.
Respirem, mãos. Segurem esse cansaço que vem à frente, pois não há quem segure o que minhas mãos seguraram. O meu peso. Minhas lágrimas. E todo o meu amor. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Texto (0.2)

Finde

No fim fica esse sentimento todo. Essa tristeza imensa guardada. Palavras que secaram e não sabem mais para onde seguir. Meu desespero em apontar dedos. Minha enorme, imensa, indiscutível tristeza guardada; que pensa no tanto que poderia ter sido feito para que a vida continuasse caminhando. E me martelo lembrando que isso aqui é só solidão falando. 

No fim ficamos sós, sem um ao outro. Conto nos dedos as saudades, os suspiros, as vezes em que penso em você não cabem nem em minhas mãos. 

No fim fico eu. Permaneço desnudo e ensanguentado, virado do avesso, odiando o passado irracionalmente; tendo o futuro na prateleira empoeirando já, quase gasto está o futuro. 

No fim estão os abraços rápidos, sua cara amarrada por pequenas meninices, as comidas frias, as músicas que não podiam ser cantadas, meu peito enorme que queria ter te dado o mundo e você não soube querer. 

No fim sou eu quem chora na noite quente de Recife, que não tem ar-condicionado que esfrie ou seque minha dor. A dor de tentativas frustradas. Dos desamores e desgostos dados. Que minha inconsciência culpa você sim. Que não nego que dói muito. Que minha dor é só minha e que ela não vai embora por medo de que sem ela eu fique de vez completamente só.

No fim findamos. Findei. Por não aguentar mais as birras e os trejeitos específicos que me tiravam do sério. Tive eu que ir lá, depois de todo o arrastar sanguinolento, e terminar tudo. Como uma festa que fracassa e ainda tenho a dor de limpar o salão. Como uma vida celebrada na ironia.

No fim morremos, eu sei, então logo não é o fim ainda. Mas de fins em fins morro um pouco. E nem mais posso dizer que está desgastado meu coração, afirmo apenas que ele também se findou. Mandei para o conserto do tempo e a minha teimosia há de regrar esse retorno. Findei-nos sim, e o faria seis vezes de novo, para cada ano de sofrimentos e alegrias juntos. Findei-nos por não ter outra saída. Você não me deu nenhuma.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Poesia (22.1)

Biológico

As feridas fecham
Em tempo dos curativos irem-se.

Não espere borbulhar a água
Sob o constante atino
Do olho vão.

Há de fechar em seu tempo
A dor de ontem.

Meu bem, escutes:
São ondas que chegam.
Da maresia se fazem conchas novas.
Carregando pérolas,
Endividando senhoras,
Apaixonando moças.

As feridas fecham
Ao tempo que meu coração se lava
Num processo biológico
No qual se espalha
E se recolhe.

Se espalhe
Deixe o mar sangrado levar-te.
Lavar-te.
As feridas fecham.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Poesia (22.0)

A escada

Degraus gélidos
Acariciam minha pele seca.
Não fazem cócegas
As roupas folgadas.
Meu rosto repousa
No pisar latente
De milhões de vidas
Sugadas por fumaça
E cimento.

A escada que me abraça
É a mesma que outrora
Derrubava meu copo de leite
Com sua precisão compassada
De barulho de chuva
No meio do outono gasto.

Não caem folhas.
Mas acalmaram-se os carros,
As pessoas,
Os restos de comida;
A vida acalmou-se.

Triste era ver
Pelo canto do olho
O sangue da testa vazando
Pulsante
Escuro quase preto
Sem luz ou refração necessária;
Sabia que era sangue
Pelo cheiro viscoso de vida
Indo em boa hora.
Embora soubesse que a vida
Era uma carta que se espera
Ansioso,
Que chega quando é menos esperada;
Borbulhando,
Derramando o leite quente no fogão,
Esfriando na calada da noite os pés pra fora
Do cobertor dantes não usado.

A vida;
Presente que chega ao fim do dia
Envolto em papel bonito
Com cheiro de papelaria de bairro
E é rasgado ao meio,
Em quartos,
Em pedaços menores que quartos,
No chão do quarto,
Bagunçando o assoalho,
Deixando o rastro de felicidade e vida
Na marca latente
Dos pés de homens mal servidos
De felicidade e vida
Que construíram e edificaram
As escadas da minha felicidade e vida.

A vida como a escada
Daqui de casa
É massa dura
Que me abraça na madrugada
E me derruba o jantar.

Escolha minha subir e descer
Sem ajuda.
Marcando o passo das milhões de vidas
Que passaram nesse chão
Antes da minha;
Marcando o compasso da música dançada
Nesse chão mole
De mangue vivo
No qual sangraram
Homens vivos
Na terra agora morta
Por cima de homens mortos
Outrora vivos
Que nunca saberão
O que é
Uma escada.

Que me ocupe agora
Eu
Do balançar desse subir e descer
Pra saber achar,
Nessa busca incessante
Por claridade,
Abraçar também
O chão,
A vida,
O descer
E a escuridão.

Pois não só de claridade
Faz-se o dia.

Esqueceram-se de nos dizer
Que o balanço
Balança
Doze horas na luz que mata
E doze horas
No breu que descansa.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Poesia (21.9)

Flying Rivers

Taken care of
I am
By my lonely soul.

History has written itself
With its dirty ink
Throughout my body
And made it rot.

I see my harbor
From a great distance;
In the translucent water
That reflects
My rotten spirit
For not being able to reflect
This dead body of mine
I do not see myself.

Relentless is my struggle.

No one ever asked me
If the sailing amused
My reluctant mind.

It does not.

I am not for the waters.
Waves now make me nauseated.
I beg that you leave me
Cast away
In the dark sand
Of this unknown beach.
Leave my thoughts alone
For myself
Or the devil
To take care of.

Leave my dream of this ancient ocean
Rest mumbling watery words
As lost as the foam
That now I have become.

For foam I am
And no body must I have
Just to lick the unknown sand
Shall I desire.

For foam and ashes
Still to burst out of this shore
As soon as my own skin
Floats to me
My sanity will I recover.

Waiting for you to leave
And hope that I
Alone will crave
To sanity again.
To my own self.

My ocean is waterless,
No international part of me
Shall be conquered,
Because no ship shall sail
In the dark foam
That my body has become.

Thus the wind
May take me,
As the water
I no longer trust.
As long as foam I am
Shifting across the earths is needed
In order to find
The new elements
For this yet to come
Body of mine.

Will I find roots?
Silent was the wind
To my inquiry.


quarta-feira, 11 de março de 2015

Poesia (21.8)

Amontoado

Faltam palavras.
Rumores desconcertados
Lavados com um banho.
A poesia não mais transborda,
Os olhos secos não choram,
A brasa que mata
Enche meu nariz de dor.
A fumaça velha
Enegreceu os olhos
Castanhos agora,
Sem malícia
Cansam-me as palavras.
Insuficientes e fracas
Saem atropeladas
De mim
Mesmo assim.
Não gotejam mais
As veias abertas,
Balançam dormentes
Meus braços estirados
Ao longo da minha existência.

Como quem espera as flores
Num inverno recém chegado
Acalanto minha preocupação
Sem anteceder qualquer dor.
Deixei de sentir as presenças
De sentimentos desse plano.

Material para escrever minha solidão
Ou meus dessabores
Faltam nas prateleira das errantes.

Gritos uivam na noite
Sem vida selvagem para reclamá-los seus.
Um amor cansado
Cheio de preposições e pronomes.

No fim das palavras
Encontro um homem abaixado,
A luz do poste saboreia suas costas,
Agachado no muro
Lamenta baixinho
E grita por mim
Sua tristeza sem fim.

Sons não são palavras.
Movimentos não contém mais sentido.

O homem recolhe as flores murchas,
Tranca uma pequena fechadura em seu peito,
Atira a mim o molho de chaves
Com mais chaveiros que possibilidades,
E se joga aos céus
Torcendo para encontrar palavras de novo,

Vejo tal homem ir embora.
Paro no muro do fim das palavras,
Tenho flores comigo,
O inverno findou,
Agacho no meio fio
E luzes tremem sobre o meu pescoço.
Procuro no molho de chaveiros
A possibilidade de trancar meu peito.

Não encontro palavras.

Sem palavras

Encontro apenas
O fim.

domingo, 1 de março de 2015

Poesia (21.7)

Inerte

Das costas rasgadas
Não saem mais asas.
Não voam mais
Os sonhos de outrora.
Relento é agora
Meu braço doído
Que me é travesseiro
Nas noites claras.

A poesia enfraquecida
Já não expressa mais
Dor alguma.
Perdeu-se no emaranhado de vezes
Que tentou se escrever.
Mas sai inerte de mim
Sem que ao menos considere
As dores que poderia abrigar
Nesse fim.

Não talho
Nem mimo
Nem minhas próprias palavras
Rimo.
Ou rimo.
Sem destino.
Escrevendo por horas,
Tardes são as horas que escrevo.
Não constam em meu relógio
Todas as horas do dia.
Perdidas estão,
Oras.

Meu pescoço dói.
Meus olhos pesam.
Não é poesia o que faço,
Mas descrição sóbria
Do meu corpo enfraquecido.

Vejo os minutos mudarem de cor,
E penso se poderia estar eu
Em algum lugar chuvoso
Debaixo d’água
Pedindo para que tudo molhasse;
O gelo leva embora
O meu enjoo,
Mas deixa o meu enojo
De tudo que sofri.

Grato pela vida,
Por cada pedaço de bolo
E cada pedaço de dor
Que me foi dado.

Só não consigo escrever;
O limite da dor
Que não me transborda às palavras
Pois lágrimas não mais caem,
Nem gritos mais enlouquecem.

Puxo meu cabelo
Fio a fio
Num ato de desespero
Por sentido.
Não tenho cabelos.

Não tenho mais palavras.
Nem a mim mesmo
Eu tenho.
Passei a ser apenas
E isso é pouco.

Ser é pouco.
Queria estar mais.
Se não hoje,

Amanhã é capaz.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Poesia (21.6)



Ticking Clock

Won’t show
My pale face
To no shallow
Mirror.

Shan’t I live
With the mourning
Of solitude
And my desperate attempt
For clarity?

Could I choose
A path?
A safe one,
Please,
Good goddess,
Show me
A safe path
Upon which I can lay
My wings
And rest;
Disarm them
From my bleeding back
And jump into salvation
Without no further guilt,
Without feeling holy
And yet human.

Can I feel exhausted
Already?
These cigarettes
Won’t kill myself
Alone.
For dead I am
Since my birth,
For death has laid
His wings
Before
I had the chance
To do as such
Myself.

Should I
Keep on
Flying?

domingo, 25 de janeiro de 2015

Poesia (21.5)



Ah ah

I rip my wrists
In soft
Lovable pain.
I did what I had to do.
Organized my drawers,
Cleaned up my clothes
And murdered
My soul.

How could I?

sábado, 24 de janeiro de 2015

Poesia (21.4)



Às Suas Mãos

Acordo sensível,
Excitado,
Com o peso do mundo
Nas minhas costas
Descansadas.

Não te reconheço.
És aquilo que talvez
Tenha eu idealizado
Por muito,
Mas realmente lutado por
Raros tempos.

Nos conhecemos
Uma vez num sonho;
És o respingo de realidade
Que meu coração pede.
Que minhas mãos sabem,
E como sabem,
Achar o caminho
À tua perna.
Sinto tua calça jeans
Áspera contra meus dedos,
Teu braço envolve meu pescoço
Como um cachecol agasalha no frio.

Sentamos para conversar,
Ao redor não olhas;
Não nos preocupam.
Somos dois quaisquer
Sendo os mais importantes.

Teu rosto ainda não tem a forma
De rosto qualquer
Que tenha assentado em terra,
Serias meu coração?
Desejo?
Minha contínua vontade pelo novo?

Então teu beijo.
Boca pequena
Que se desenvolve sobre a minha;
Mãos ágeis
(Desconhecidas!)
Que desnudam meu rosto.

Quem és?
O que queres de mim
Nesse mundo de fantasias?
Não sabes quem sou?

Talvez nos conheçamos
De outros sonhos;
Então, 
Por favor,
Sinta-se em casa
Nos próximos.