domingo, 1 de abril de 2018

Poesia (27.5)

balk

there was water on the bridge that day.
when leaving the bridge the water was seen.
that has been found over and over
and it will soften your heart again.
do not allow the bridge to be your country.
your land is supposed to be home.
establish firmly your feet on the water,
let the leaves become hair to your soul,
dive into your kind heart
and once again
do not make of the bridge
nothing but what it is supposed to be:
a fleeting moment,
a crossing path
towards
yourself.

sábado, 24 de março de 2018

Poesia (27.4)



escura luz

“tanto mais os olhos se veem,
quanto menos se veem as cousas...”
Paul Géraldy

duas ou três afinidades
condenam o caminho.
deixam as dobradiças de mim
tangendo rangidos,
molham as mangas:
algodão do recomeço.

oitos deitam sobre mim  
separando-me as costas,  
respiração fracionada,
colocações:
frases inexequíveis.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Texto (0.8)


Homem Barco
escafandro
substantivo –majoritariamente- masculino
vestimenta impermeável, hermeticamente fechada, us. ger. por mergulhadores profissionais para trabalhos demorados debaixo d'água.

Ontem à noite eu matei uma borboleta; não sei o que isso significa. Frase estranha, mas acurada. Entro no meu quarto depois do jantar e escuto um barulho típico de inseto que esvoaça ao redor de lâmpadas. Era uma borboleta. Azul e branca. Joguei com ela. Apaguei a luz por alguns segundos, e tornei a acender. Apaguei. Daí acendi de novo. Ao apagar ela se perdia um pouco: bisbilhotava meus livros, checava meu cronograma do semestre que estava exposto na parede; mas logo então voltava à luz quando eu jocosamente a acendia. Apago uma última vez e percebo que a borboleta agora se fixa sobre a parede escura, não mais passeia pelo quarto. Tento expulsá-la, balanço uma camisa na tentativa de que demonstre algum sinal de incomodo com o vento que lhe é soprado; nada. Move-se então direta e certeiramente para a poltrona; como criança que corre ao sofá chegando da escola evitando perder o começo de seu desenho tão quisto. E fica lá, inerte, soberana, no aguardo de mais notícias dos investimentos recentes que fez no tesouro. Sem muita paciência, e ainda com a mesma camisa eólica, tasco um movimento brusco e a vejo cair. Olho o corpo levíssimo rodopiar da altura já pouca da poltrona para o chão. Nenhum movimento mais é visível. Acendo a luz. Nada. O silêncio biológico se instaura. Prontamente toco a asa sobressalente. Nada de novo. Com um movimento de pinça pego o corpo do inseto e sacudo pela janela. Como se viva, voava um pouco, mas caía mais rápido que o vento poderia esforçar-se para segurá-la no ar. Seguiu até onde pude ver: espiralada e molhada de vento. Apago a luz. E penso se sentiria o desconforto que se seguiu se fosse uma barata, ou até mesmo uma vespa, sequer se fosse uma borboleta mais feia; se o movimento sinuoso que meu peito fazia para dentro estaria pontiagudo também. Olho a luz novamente. Acendo. Apago. Acendo mais uma vez. Desisto então de reaver a borboleta ao quarto. Dançou e seguiu. Ontem à noite eu matei uma borboleta; e não quero saber o que isso significa.  

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poesia (27.3)

You had left or The usage of the past perfect

Even before cringing
My path away
You had been gone.

Oceans apart had been swum by us
Moving my water into drifting.
You had chosen all the tiny mistakes
To overcome our history.

As the boy that I hadn't gotten to know,
You faded.

I had chosen to leave
Even mesmerizing your further position over the front
Of the upcoming war.

You had left us in order to live among others
You had forced me
Into opening my doors to people
So you could fly without feathers.

I'm drifting away now.
No guilt.
No time.
No water.
Along the flavors of my own tone.

I keep on listening to my eyes.

No guilt.
No time.
No water.

No you,
Finally.

Poesia (27.2)

Patrimônio

Desdobro sentimentos
Por mim.

Desconheço a finalidade dos atos,
Caminho sem precisão.

Velejo nas intermitências
Do cansado ardor
Que insisto em sentir
No peito já desacariciado.

As glórias e delírios de mim
Devolvem o saber
Ao seu canto.
Promovem
Nos meus pelos
Vontades súbitas
Dos carinhos que senti,
Meu sono se faz nas pálpebras
Das mordiscadas felinas.
Sinto faltas,
Medos,
Rejeição,
Necessidade.
Mas sigo.

E sugiro a mim
A manutenção de mim.

Texto (0.7)

Hate Poem or How My Water Steamed Up or Anatomy of Rage

My jaws are the first to get hurt. Overly stressed they end up locking my tension in and making my voice unheard. Then, as a natural consequence, my teeth get fragile, and the pleasure of coffee begins to fade. My shaky voice goes through my head and spins around the days. I get caught feeling down for no other reason than my loneliness. And I deeply feel like crying and crashing my head against a wall, so that you'd at least leave my sight or thoughts. And even though I don't hate you yet, my lonely anger gets to my nerves and harms my insides over you.

Poesia (27.1)

Acabou de Acabar

Sem as tuas mãos
Meus olhos fechados
Pela madrugada
Não abrem.

Faz falta o carinho.
Estranho o amanhecer.
Numa saudade sem fim
Eu desconheço meu próprio toque;
Minha pele está assustada.

Como faz falta o amor.

O coração não esquenta nas surpresas,
Nos meteoros desaforados,
Muito menos nos trovões e relâmpagos de necessidade.

Não.

O amor esquenta todo dia
Cedinho
Com as mensagens de bom dia.
Fumaça o amor
Quando tua voz ecoa nos meus ouvidos
Com os diminutivos enormes.
Ferve com o cotidiano de mensagens no espelho embaçado
E comida chinesa.

Alguns sonhos nunca dormem.
Vício meu era tua pele,
Tuas mãos,
Teu beijo longo.
Meu pescoço tem memória de elefante:
Não esquece os arrepios que tu causavas.
Minha barriga está marcada com teus dentes ainda.
Meus olhos ainda lembram do teu sorriso.
Minha boca ainda tem gosto do beijo na piscina.

Acabei eu,
Acabaste tu;
Acabou, não foi?
Quem diria;
Todo dia acabo.
Acabou de acabar de novo.

domingo, 26 de novembro de 2017

Poesia (27.0)

sufocando

saudadezinha infeliz.
roendo as beiradinhas dos pelos do peito,
como tapuru em goiaba,
estragando os pedaços presentes
que vislumbram celebrações em mim.

saudadezinha cruel.
jogando sal nos cortes entre os dedos
com limão e tudo,
fazendo meus dentes rangerem
com o barulho das canções
de mais ninguém;
do ontem.

saudadezinha incabida.
balançando meus cabelos ralos,
querendo despir minhas roupas de baixo
e cobrir-me de lágrimas
ao invés.

saudadezinha mórbida.
prenúncio da perda total,
da ameaça de um outro,
como criança que quer todos os brinquedos
mas não tem como carregá-los.

saudadezinha feia,
transfigurando minhas ideias,
acariciando necessidades
amordaçando as asas da goela.

saudadezinha oca.
transeunte de mim,
completa e largamente
envolta em meu pescoço.
sufocando.

domingo, 12 de novembro de 2017

Texto (0.8)

Relegere

É relendo os poemas antigos que eu paro pra pensar na mutabilidade que vem tomando conta de mim. Também é nessas releituras que encontro conforto no entendimento de algumas bases e raízes mais grosseiras que entrelaçam minhas vivências: sólidos momentos de amor, amizades claras, uma tristezinha inerente ao ser permeia acolá também; palavras ricas que revelam tanto de mim a mim.

Tantas foram usadas para falar de primeiros beijos, ou de eufóricos momentos de carinho, também de hiperbólicas paixões de verão. Faço-me terapêutico nessas leituras. Repenso esses beijos todos, esses tantos que ainda arranham um pouco minha boca, e vejo que certamente eu sou um entusiasta do sentir. Experiências tantas que mesmo saindo no atropelo de sensações tão trêmulas são reveladoras.

Sorrio para partes de versos, repenso se vale a pena ter me desnudado tanto, fomento a necessidade de ser eu mesmo, assim como a de ser água. Alguns versos eu queria rasgar também, mas pensar em extirpar a palavra é pensar em atear fogo a uma fotografia guardada no fundo do meu guarda-roupa, digo-me logo um deixa ali, é parte de mim, aquele momento da foto-palavra foi outrora digno de materialização.

Os poemas que me esclarecem as raízes são de uma importância tremenda: é neles que eu identifico a estrutura óssea do caminho que sigo, ou do que insisto em seguir. E me faço esse bem, me escrevo e me leio, sem a necessidade do olhar do outro por enquanto; levo minha arte como sei que posso: um diário de pessoalidades que compartilho comigo o tempo inteiro, e que quando lido por mim ou por outros, ainda assim é meu, e não sei escrever sobre nada além daquilo que me atravessa.

E nesse caminho me descubro um bocado, dos afetos aos desamores. Das demasiadamente exageradas palavras de amor ou dor ao mais claro desvendar do cotidiano.  E é aí onde me demoro. Onde me encontro. E só sei me demorar em mim. 

Poesia (26.9)

act up

swirling in my head
as the tongues from the deep night
filling me with blurred ideas of
fear
hope
expectation
warmth
kind kindness;
just take my hand.

we are bright
in the complexity of being.

my heart skipped 120 beats.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Poesia (26.8)

pronome dêitico

só é leve quando
eu digo que é.

só balança mesmo,
de tremer o olhar,
se eu deixar balançar.

e me lanço a mim
num voo contínuo
de ida.
há de ser ininterrupto.

ser água no vento
e
deixar-me ir,
apenas.

só é leve quando eu diego.

domingo, 22 de outubro de 2017

Texto (0.7)

Sundays Are Harder

I dreamed of you, you know?

It was just like the old days but I woke up feeling guilty.
Guilty because of how I feel now.

We were at a party, somewhere like what the lesbian bar used to be; loads of drugs, we shared a beer, kisses all over the place. My friends were there too, they were having a nice time. You pull over a bit of weed, make yourself a cigarette, I would look at you with disapproval, I still don't see your smoking with good eyes, it's like I can feel you being lost all over the smoke in each and every cigarette.

We would go to my house after the party. But not to neither of the apartments I had lived in for the past years. It was the house behind Nana's. My old bedroom but with a double bed in it. My mom was in the kitchen, yelling, cooking. You were in my bed, shirtless. Mom would scream in order to talk to me, I'd go there and have an argument with her, we'd cook something, and I'd go back to the bedroom.

You're eating Chinese food there. I start kissing your bellybutton, weirdly shaped, but beautiful to me, and wake up.

And I feel guilty, because I want you, you know? 

I feel bad because I think I want this past. I feel bad because it seems like I don't want myself. And there’s no art over here, just pain.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Poesia (26.7)

entardeço

apressados
apressados
os passos se curvam
diante da rotina.

monto esquemas,
desconto horas,
preparo estruturas
(tanto físicas
quanto intelectuais).

convivo com os fantasmas todos,
bebo água,
faço rir,
faço rir.

como o que trouxe comigo,
reduzo problemas,
na mochila estão;
escuto canções,
viabilizo respirações profundas.
e choro baixinho pra dentro,
baixinho,
baixinho
só eu escuto;
deixo cair aquelas lágrimas.
entardecidas se perdem,
nem tão salgadas mais, eu acho.
têm o gosto da tarde.

entardeço seguindo o barulho
das obras,
caçando a lua,
tropeço olhando pro céu,
mas não caio com frequência.
sigo com fones atarraxados
que inundam meus pensamentos,
já entardecidos,
de qualquer coisa
que distraia;
e o sol se finda acolá.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Poesia (26.6)

Burning Before Building

The bridges are aborted
While kissing.

I disappoint myself constantly.

My shields have been risen
So high
That not even my giant heart
Is able to go over them.

I'm covered in missingness.

I have aborted possibilities
Before even giving them a try.

We must have been great lovers
In past lives.
I have been defying stars for too long now.

It's time to defy myself to be happy.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Poesia (26.5)

amanheço

vagarosos
vagarosos
os sons do sol
invadem.

levam o entorpecer
dos sonhos esquecíveis,
deixam as cicatrizes
das melodias do sono.

desvendo as cortinas.
sou rasgado em partículas.

o miado de longe é ouvido.
Nina se revela ao abrir da porta.
minhas pernas se tornam labirinto felino.

desjejum pragmático:
café,
cigarro,
iorgute grego.

a maresia das obrigações
puxa pra fora de casa
meus pés.

o dia claro ou escuro
pouco importa
se meu coração canta comigo.

domingo, 27 de agosto de 2017

Poesia (26.4)

Peace Within 

The sun had rushed into rising.

My fleeting heart
Once again
Was full.
Gathering all the possible
Myselfnesses
It could grab
From the dusty shelves.

And I felt whole again.
Whole in my complete
Nothingness
Where the state of mind
I've been looking for
For so long had been hidden
From by my tricky mind

Thus
I'm grateful
For the being what
I've become
And all the ones
I've grown up with

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Poesia (26.3)


I was not born for happiness

This time
I'm gonna keep me all to myself
And he makes me want to hurt myself again

Pagan Poetry - Björk

Torn upon myself
I catch hearts half way;
They are to meet
Minds.

Reason dizzies me away 
From what I should feel.
Emotion drives me mad
Away from my senses.

And I fall over again.

Kiss.
Touch.
Fuck.
Sleep.
Drink.

And I fall to my forbiddance
Of love,
Of joy. 
And I thrive.

Once more
the expectation.

The line of thinking
Drags me
Into the upcoming
Trembling of hands,
Of a bearded scratch
On my neck,
Of someone to desensitize
The pain
I believe to feel.

I have felt the ashes
Bursting into the wind.

I will play my pretended piano
On my skin.

Poesia (26.2)

Geoponia

Escrevendo exponho os desdesejos;
Transmuto algumas indigestões,
Esboço sorrisos menos amarelos
Mesmo com os dentes mexidos de café.

Escrevendo consigo me ler;
Protejo dedos de cócegas em corpos vãos,
Vou-me embrulhado em mim, 
Cascudo todo,
Pragmático até.

Escrevendo suponho ideias,
Converto verdades em sólidos,
Manejo incontáveis sonhos,
E amo,
Amo demasiado.

Escrevendo tento um bocado,
Chacoalho minhas memórias todas,
Calo diversas vozes
Que insistem em me contar
Piadas de mal gosto.

Escrevendo eu vou seguindo;
Escapole um erro aqui e ali,
Mas vou seguindo.
Falando sozinho
Mais alto que antes,
Falando comigo
Pra ver se me escuto.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Poesia (26.1)

Unfolded

I have had my share
Of broken hearts,
I have had my share
Of breaking hearts;
It does not mean
I am broken.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Poesia (26.0)

Marks
1*question
a matter of some uncertainty or difficulty; problem

2*fright
a sudden intense feeling of fear.

The matter has been
Asking questions.
Questioning my furry chest
That insists to sleeping under
Unknown ceilings.

Why have such actions led me
Into the dark side of my eyes?
Leaving,
As immensely freeing as it may be,
Has never meant the same to me
As I know it has to others.

The hypocrisy in affirming such nonsense
Hides from myself
The guilt in hurting the hearts
I had left by the roads.

I meant no harm;
Did I?

Asking questions is dangerous.

Are you where you
Have felt you’d like to be?
Can you see,
Can you really see,
Yourself in the mirror?
Does it crack during the day?

Are you able to explain
Your fright of happiness?

What have you been hiding
From the ones who meant to care about you?
What have you been suggesting to yourself
As you go over the radio looking for
Missing pieces of your past?

Is it a choice to be happy?
Why have you been choosing otherwise?