terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Poesia (32.8)

retalho de água

sonhei com o mar -
sexta já passou
a praia já escureceu
e ainda tem areia
na minha sunga

tem coisa que eu varro
pra debaixo do tapete de água
mas praia de pedra
molha meu peito
arranhando

que saco - 
queria outro aperreio
que não o ter os dedos enrugados

¡viver as escolhas
sem o interdito
da renúncia!

que saco -
queria outro aperreio
menos o de escolher

tem coisa que varro
pra dentro de mim
sem nunca marcar
um dia pra faxina

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Poesia (32.7)

cavalo-marinho

tirar da cabeça
com esforço hercúleo
~o mar
que invade em ondas.

sexta isso passa
a praia está lá
sexta isso passa
o mar não vai secar.

se é sede
água
se é fome
comida
se é outra coisa, meu bem
encontra nome
antes que crie raiz

o mar é profundo
o tempo nem tanto.

domingo, 30 de abril de 2023

Poesia (32.6)

um amar parecido com o de marília pêra lendo drummond

há o mar aqui comigo,
e o vento também,
por que não?

os barcos flácidos,
as ondas amorfas,
as sereias afônicas,
e as pedras tétricas.

há o mal aqui comigo,
e o mau também,
por que não?

os desejos pérfidos,
as vontades sórdidas,
os contratos tácitos,
e as volúpias mórbidas.

há o outro aqui comigo,
e eu também,
por que não?

os olhares átonos,
as cabeças metálicas,
os corações platônicos,
e os abrazos rotos.

há o tempo aqui comigo,
e o espaço também,
por que não?

as horas frouxas,
as cadeiras bambas,
os momentos estáticos,
e as lembranças antológicas.

há muito aqui comigo,
e quase nada também,
por que não?

minhas paixões honorárias,
meus amores inúmeros,
meus gatos quádruplos,

e minha poesia.

Poesia (32.5)

um amor que bate na aorta parecido com o de drica moraes lendo drummond

amar é, antes de tudo, escolher amar.

paixão toma estádio,
lota festa,
embebeda corpo.
de manhã é ressaca,
é dor de coluna,
é gozo também,
mas é arroubo tomado.

amor é bicho-diário,
que tem que botar comida no pote e dar banho.
escrever palavra na parede.
plantar tâmaras.
colher noutra vida e nessa esperar a colheita
dos amores de outrora.
também.

amor pede alegria,
nem todo café é só amargo.
escolher o que fazer da vida é escolher a vida,
e é escolher o pra sempre todo dia.

amar é escolher amar.

Poesia (32.4)

domingo, dia trinta do corrente

ser surpreendente.

deixar ser surpreendido.

num dia morno de chuva,
o amor é um espanto.

Poesia (32.3)

haikai de terra

o touro dorme.
descansa juventude.
eu olho com carinho
o som.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Poesia (32.2)

sobressalto

eu já disse que te amo
algumas vezes
com os olhos.

só com eles.

ou com as mãos.
só com elas.

ou com o sexo,
sempre ele.

você já ouviu eu dizer
que amo suas partes
por inteiro.

você já leu eu declarar
meu amor
ainda que sem freio.

eu já falei de amor
com você por perto,
do lado,
por dentro.

eu já lhe chamei de amor
em casa,
na cama,
no centro.

eu rimo pouco,
mas faço música na tua pele.
eu fico impressionado com o amor.
eu fico.

sou eu.

você me diz que é meu,
eu te digo que sou teu,
e somos um do outro
enquanto
eu
em espanto
tenho certeza
que te amo.

Poesia (32.1)

rubrica

(palavras para serem ditas em voz grave. não é canção. é monólogo.)

no sofá do meu quarto
eu amo
(`)
a noite.

eu odeio
(`)
a noite.


Poesia (32.0)

hario v60

vou dormir
te amando.

acordo querendo café.

passo o dia te amando.

Poesia (31.9)

relâmpago

todas as minhas pessoas
poéticas
amam.

muito.

semelhantes a mim.
todos amam
o amar.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Poesia (31.8)

haikai duma surpresa de amor

duas escovas de dente
onde antes
era uma.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Poesia (31.7)

o que talvez venha a ser, já o é também

hoje me peguei pensando
com o coração.

que horror brutal que é.

coração não faz sinapse,
só sinopse fílmica.

uma fera em festa num mar.

na pele do mar
gasta
o amor.

eita palavra que recorre
às sinopses do coração.

já faço música e poesia
debaixo d'água.
já chamo um nome
sozinho
pra mim. 

amor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Poesia (31.5)

frustrações que traz o mar

queria falar de amor
sem que você soubesse.

queria mesmo
falar de amor
sem que você pudesse ver.

que tivesse escuro,
que tocasse música,
que falassem baixo,
que mostrassem fotos nossas,
mas que você não soubesse.

queria falar que te amo
sem parecer maluco.

queria mesmo
falar que te amo
sem que você me visse doido.

que você me olhasse com carinho,
que você me tocasse o rosto,
que você pegasse minha mão,
que você pusesse torta de maçã pra gente comer.
e que ficássemos ali,
bem ali,
do lado de fora,
no fim de uma tarde mais quente que o normal
(de tanto café que a gente tomou),
e que dormíssemos juntos mais uma noite,
e que essa noite durasse um bocado.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Poesia (31.4)

Once in a blue moon
My heart is broken.

Not in many pieces as before
But it does break.
Not in an unmendable way
But it does break.
Not in a fair manner
But it does break.

Once in a blue moon
Loneliness strikes.

Not in an irreversible way,
But it comes.
Not permanent
But I feel its presence.
Not for good
But it is bad.

Once in a blue moon
I sleep with the sound of my fan
Drying my inner tears.

I do not cry in moments like this,
I haven't in a while,
Because once in a blue moon
I feel blue myself.

I live on a planet where the moon is blue

Poesia (31.3)

ouch, I have done it again

I feel my heart is severely broken.
I was the one to break it.
I, while trying to mend it, turned it to ashes.
I, with others, tried to mend a soft part, that needed time to heal, not glue to overwork it.
I sense my heart has been through an awful lot.
I taste my heart sour now, even having it been sweet once.
I hear it beating skipping rhythm.
I do not want to hear it anymore.

Poesia (31.2)

mil beijos

minha hipérbole favorita.

Poesia (31.1)

a scene from A Single Man

o sofá ficou aberto,
ainda ecoam risadas na sala.
você volta já,
eu sei,
eu acho que sei.

parede molhada de chuva,
de amor.
gato pra tudo quanto é lado,
molhado de chuva,
de amor.
livro que lê a gente,
deitado agarrado,
lendo com gato,
com chuva,
com música,
com amor.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Poesia (31.0)

colchão fortuito 

como posso
sentir saudades
da breve combustão que é
tocar
tão simples
e completamente
a tua pele?

olhar você
e ver teus olhos
marejando cores achocolatadas
doces-doces,
cheias de um carinho ainda
pouco conhecido,
mas intenso na sua complexidade
efêmera.

como posso
sentir vontade
de estar ao teu lado
tão pouco perto e tão tanto longe
que penso em correr até você?

três horas daqui até aí,
três grandes horas daqui até aí,
três agigantadas horas daqui até aí.

olhando pra mim, 
aqui,
você,
seus olhos olhando os meus,
meus olhos olhando os seus olhando me olhando.

“se todo abismo é infinito,
será que a gente vive pra sempre
quando cai?”

como posso eu
tão
tão
tão
logo
amar o fulgás,
incompleto,
invisível,
amor?

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Poesia (30.9)

diário de bordo posterior – 20/05/2022

eu gosto de sextas-feiras.
dia em que trabalho menos,
dia de terapia,
de olhar pra cara de Jonas
e de saber que eu vou mudar
alguma coisa
em pouco tempo.
eu sempre mudo às sextas.
eu me transformo um pouco
às sextas.

mudei meu pouco às 13h com Jonas.
desmarcações de aula,
queria estar só,
tomei um sorvete de flores e chocolate branco;
voltei pra casa.

a vizinha de cima pediu um colchão emprestado.
chegando lá
meu coração tripudiou.
dançou um pouquinho.
olhou o sorriso bonito
de um desconhecido – até então – 
bonito,
deixei o colchão,
– que bonito –
e voltei pra casa.
uau.

lavo os pratos pensando
– bonito –
tomo banho pensando
– que bonito –
castelo como voltar lá.
umas cervejas, celebração breve.
retorno.
uau.
– que lindo –.

converso um pouco,
tomo cerveja,
sinto vontades.
estreito vínculos,
morar só é um desafio,
ter pontes na vizinhança acalanta bem
o coração chuvoso.

sigo pra casa,
reencontro afetos amigos.
lembro do sorriso.
danço.
relembro do sorriso.
bebo.
não pensou noutra coisa.
que sorriso.

chego em casa
querendo subir um lance de escadas mais.
deito.
durmo rápido, nem cinco horas.
acordo.
o sorriso bonito
aparece no meu telefone.

o mundo encaixou colchões,
escadas e vontades.

quem sorri agora sou eu.